domingo, julho 09, 2006

...para onde vou agora...?


Fecharam-se ontem as portas de uma fase da minha vida que hei de guardar sempre com muita saudade porque mais que notas ou canudo na mão são as pessoas que felizmente se cruzaram no meu caminho que foram e são realmente importantes...boas ou menos boas contribuiram todas para que que chegasse onde estou agora...num novo ponto de partida desta caminhada que cada um de nós é. A todos um agradecimento sincero... e um beijo especial para alguém que não soube nem quis esperar... a nossa história não fica por aqui... ambos sabemos isso...

e daqui para onde vou??

terça-feira, maio 02, 2006

Número 111


Mais uma história para teoria do design, desta vez baseada no capítulo sobre a Factory de Andy Warhol, do livro "A Boa Vida" de Iñaki Ábalos. Este estava um bocado desinspirado e foi ainda mais em cima do joelho. Se tiverem paciência leiam. hehe


Era o fim das aulas, e eu encontrava-me aliviado de todo aquele stress próprio do final de um ano lectivo. Exames, trabalhos teóricos, projectos, maquetas…tudo isso ficava em suspenso durante as férias. Ainda me faltavam três anos para terminar a licenciatura em Arquitectura pela FAUP mas pelo menos metade do caminho já estava percorrido. Como que primeiro festejo do ano que acabara de terminar, eu e algum do pessoal da minha turma decidimos ir a uma esplanada à beira mar para gozar a recompensa de um ano de trabalho árduo. Era o quadro perfeito para um fim de tarde Junho bem passado. Comigo estava o grupo de sempre composto por amigos de longa data e colegas de curso: Nhé, Turtle, Fred, Diogo, Fábio, Isabel, Tabasco, Letícia, Paula, Ana e Joana. Estava um ambiente festivo, dominado pela cerveja, pelos tremoços e pelas piadas secas.

Fred - Epá…hoje à noite temos de ir a um sítio mesmo porreiro que conheci outro dia, o 111. É mesmo porreiro. É mesmo no centro de Matosinhos, na Rua Brito Capelo perto do metro. Tem um ambiente mesmo familiar, podes estar mesmo à vontade, o ambiente é de festa constante onde podes beber, fumar as tuas cenas, jogar matrecos, tocar piano, ler, pintar e é claro, ouvir música e dançar.

Nhé- Ya… Já ouvi falar disso. Disseram-me que era um espaço mesmo grande, que era uma antiga fábrica de conservas mas que agora estava abandonado até terem pegado nisso. E é porreiro que é mesmo no centro de Matosinhos. Podíamos lá ir hoje todos!

Fred - Por acaso nem sei se eles compraram o espaço ou o ocuparam simplesmente, mas seja como for, ao menos dão-lhe uso, em vez de o abandonarem à degradação e à marginalidade. Assim é lugar para a produção artística e para o divertimento.

- Por acaso este acho que o compraram, mas os “okupas” de Barcelona que eu vi por exemplo aproveitam-se de lacunas na lei para ocuparem espaços abandonados e em troca prestam serviço comunitário como dar aulas de castelhano a estrangeiros de forma a inseri-los mais rapidamente na sociedade, exposições de arte, intervenções humanitárias, etc. E o governo não os pode pôr fora dos edifícios exactamente por causa desse serviço prestado à comunidade.

Ana - Isto é tudo muito bonito mas eu tenho que ir para casa que já começa a ficar tarde para jantar e depois sairmos!

Fábio - Tchiiiiii…pois é… É melhor irmos senão temos que ficar na seca à espera delas no carro! Combinamos uma hora para nos encontrarmos no Piolho e cada um foi para seu lado. Eu, o Nhé, o Diogo e o Fábio fomos às francesinhas de canelas enquanto o resto do pessoal foi para casa.


Depois de uma bomba calórica como uma francesinha fomos para o Piolho, mesmo ao pé da Praça dos Leões, ponto de encontro para depois irmos para o 111. Foi chegando o pessoal menos algumas das raparigas, como era de esperar. Enquanto esperávamos fomos falando com pessoal conhecido e chegamos à conclusão que havia muita gente que também ia para lá. Todos nos diziam que o ambiente era “muito bom mesmo”. Chegadas as “misses” pegámos nos respectivos carros e dirigimo-nos para Matosinhos. Uma vez em Matosinhos estacionamos o carro perto da praia. Estava uma noite fantástica. Com o céu limpo, a lua e as estrelas iluminavam-nos o caminho até à festa. Não éramos os únicos a ser guiados pela luz nocturna, muitas outras pessoas se dirigiam para o 111, todas elas num clima bem animado, como que prevendo o que lá se iria passar. Ouvia-se um burburinho de fundo à distância. A zona onde se encontrava o 111 era povoada de antigas fábricas de conserva e armazéns industriais, uns abandonados, outros reaproveitados, quer para restauração, lojas e até habitação.

Conforme nos aproximava-mos o “burburinho” foi ficando mais claro, aumentando de intensidade, até que chegamos a um dos armazéns que tinha o número 111 à porta e percebemos que era daí que vinha o som. Havia um grande portão de correr metálico azulado já com a pintura estalada e com ferrugem de anos de abandono. Estava fechado, mas tinha uma campainha a beira, pelo que tomei a iniciativa de a tocar. Enquanto esperávamos que nos abrissem a porta, foram chegando mais grupos da nossa idade. Só nesse núcleo que tão rapidamente se juntara tínhamos a representação de algumas das “tribos” urbanas. Estava lá a massa “alternativa” toda.

Ouvia-se o som que passava lá dentro, devia ser The Strokes ou Franz Ferdinand. Entretanto ouvimos um barulho e abre-se uma portinhola à altura da cara e há alguém que olha para nós de dentro como que a avaliar-nos. Devíamos estar umas vinte e muitas pessoas à porta, e mais a caminho.

Bigga – Quantos é que vocês são? Tabasco – Somos mais que as mães!

Turtle – Somos dez! O pessoal que está atrás não veio connosco.

Bigga – Óptimo, é que já estamos um bocado cheios, já não deve entrar muito mais gente. Mas entrem e espero que curtam o espaço que hoje é noite rock! Podem-me chamar Bigga.

A entrada tinha duas paredes seguidas que tapavam o espaço principal mas deixavam ver o telhado antigo seguro por estruturas de madeira antigas. Estava cheia de cartazes, flyers, fotografias, desenhos, pinturas, tudo preso com alfinetes em paredes revestidas de cortiça. Esse hall de entrada tinha também três sofás que nada tinham de novo, possivelmente teriam sido recuperados. Tinha também uns matrecos que no momento estavam desocupados. Em dois dos sofás quatro casais literalmente fundiam-se em jogos de amor e desamor. Um cheiro agradável a erva invadiu-me os pulmões. No outro sofá estava um quarteto animado a fumar marijuana, os sorrisos rasgados deles não deixavam enganar ninguém. Um deles dirigiu-se a nós com o charro na mão e ofereceu-nos, pelo que aceitamos de bom grado.

Tozé - Bem vindos ao 111, eu sou o dono deste espaço, podem-me chamar

Tozé - É tradição tirar uma foto de todas as pessoas que entram aqui como forma de dar uma história deste espaço feita pelas pessoas que o frequentam. Já devem ter reparado nas paredes, presumo?

– Reparei logo nesse “pormenor” mal entramos! Este lugar transpira vida. Reparei também que os sofás e a mobília não são propriamente novos.

Tozé – Pois não são e ainda bem! Quase toda a mobília que está aqui dentro ou foi dada ou fomos buscar ao lixo, ressuscitando objectos que à partida já tinham sido declarados mortos. Damos vida ao obsoleto, ao “demodé”, ao velho. O próprio armazém é um espaço recuperado. Já o Warhol fez isso em Nova Iorque na década de 60. Eu apenas pensei em adaptar o conceito da Factory ao nosso contexto sócia, do nosso país. E Matosinhos surgiu como sítio perfeito para isso, visto ter uma data de fábricas e armazéns abandonados com um espaço interior enorme, perfeito para ter um atelier e um salão para festas, exposições, intervenções culturais várias, etc… E o facto de não ter paredes fixas dá uma flexibilidade e dinâmica ao espaço muito boas.

Letícia - É de louvar uma iniciativa destas. Quer a nível cultural quer a nível de requalificação urbana. A baixa do Porto precisa tanto que a reabitem, que a reutilizem... Vocês têm algum tipo de subsídio governamental que vos ajude?

Tozé – Subsídios? Não! Tudo o que fazemos e temos e fazemos parte de nós e de pessoas que se vão juntando a nós. Vêm cá uma, duas vezes, gostam do que vêm e ouvem, falam connosco e nós pomos o espaço a disposição. O produto dessas exposições e concertos é dividido, além de se trabalhar cá dentro também. Este espaço alimenta-se do poder criativo de quem o habita. Se vocês quiserem também podem exibir e pôr à venda aqui os vossos trabalhos! Ficamos todos com um sorriso instantâneo ao ouvir estas palavras. Esta iniciativa podia ser uma rampa de lançamento para todos nós. Todos nós tínhamos uma área de intervenção que poderia ser aproveitada.


Nhé – Porreiro! Eu tenho uma data de pinturas que queria expor, até para ver se ganho algum!


- Eu também tenho centenas de fotografias que também gostava de mostrar!


Tozé – Haja vontade, faz-se tudo! Se vocês estiverem mesmo interessados podem passar cá amanhã, e falamos melhor. Eu dou-vos o meu e-mail e o número do telemóvel e amanhã vamos tomar um café e falamos melhor.


Então ele pegou num pedaço de papel que estava preso na cortiça e rabiscou lá os contactos dele. Despedimo-nos e fomos para o salão já acompanhados pelo bem-estar alegre que a erva e a conversa nos tinham dado. O salão tinha duas zonas distintas, mas sem barreiras físicas. Uma delas era quase exclusiva para dançar, sem mesas, a não ser uma para o DJ de serviço, propiciava a prática da dança. A outra zona era uma zona de relaxe, cheia de puffs e almofadas gigantes, assentos automóveis e estantes cheias de livros para quem quisesse ler. Ao pé da estante tinha ainda um piano vertical, daqueles parecidos com os dos bares dos antigos westerns. O bar era um autocarro antigo todo alterado de maneira a servir de bar e cozinha do espaço. Nas paredes a toda a volta do salão estavam quadros expostos, muitos para venda, outros já vendidos. Depois do salão principal ainda tinha duas paredes seguidas que dividiam o resto do espaço, o atelier e zona de trabalho, com todos os artifícios necessários à produção artística e artesanal, e à recuperação de objectos. O ambiente estava alucinante, toda a gente parecia completamente desinibida, um bocado também devido às drogas que circulavam livremente lá dentro. Mas tudo parecia equilibrar-se numa balança muito peculiar. Depois de conhecer-mos os cantos à casa fomos até ao bar, pedimos umas bebidas e instalamo-nos nos puffs a falar, a fumar uns e a programar as férias que tinham acabado de começar. Durante o resto da noite ainda houve tempo de irmos jogar matrecos, de dançarmos e até de expormos os nossos dotes de piano. No fim da noite cada um foi para seu lado com um sorriso na cara de uma noite bem passada.


No dia seguinte aparecemos lá já com amostras do melhor que fazíamos. O Tozé gostou do que viu e concordou em abrir o espaço ao nosso trabalho. Cada um de nós ficaria com uma semana de cada mês para expor. Foram umas férias altamente produtivas e criativas. Alguns de nós também começaram a produzir lá em parceria com os que já lá estavam. Foi mesmo uma rampa de lançamento para todos nós, que mais tarde, já com o curso terminado e em conjunto recuperamos um prédio antigo na baixa do Porto e abrimos um atelier de produção artística, que englobava Arquitectura, Design Industrial, Design Gráfico e Pintura. Todos nós fomos bem sucedidos, cada um à sua maneira, mas todos em conjunto.

segunda-feira, março 20, 2006

Não vi a luz...vi-me a Mim!

Isto foi um conto baseado na filosofia Nietzscheana do Nihilismo e do "Ubberman" (ou super-homem) que tive de escrever para teoria do design. Está mesmo escrito "em cima do joelho" mas postei na mesma para quem tenha paciência de o ler além de mim...hehe




Pregava na paróquia de S. Esmifra de Sino na Tola há já algum tempo. Era, ainda na minha juventude um pároco exemplar em pregar o que me havia sido ensinado, todos os dogmas, todas as verdades inabaláveis todos os valores e moral pela igreja incutidos. Tudo para mim fazia um sentido inexplicável, mas tão certo como a morte. Sempre me tinha dedicado ao “próximo” esperando por um lugar nesse desígnio final que Deus guardaria para todos nós. Toda a minha vida tinha sido até aí dedicada ao altruísmo e aos ensinamentos da igreja. Estava tudo “bem” bem até “ela” aparecer…

Chamava-se Isabel e era a personificação da beleza. Deveria ter na altura os seus vinte e poucos anos e era uma professora primária recém chegada à aldeia. Os miúdos lá da aldeia pareciam adora-la. Tinha, cabelo dourado, sedoso e leve, lábios que pareciam comunicar sedução e uns olhos de um verde que invadia a privacidade e roubava um bocado de quem por eles fosse olhado. Era uma pessoa simples, autêntica, transparente, sempre pronta a oferecer um sorriso terno. Era dotada de uma beleza serena. Foi desde essa altura, em que a vi pela primeira vez, que soube que não ia conseguir impedir esse impulso natural no homem: a tentação. Mesmo indo contra os princípios e regras do hábito que envergava fui-me aproximando. Esse convívio foi tornando a nossa relação cada vez mais próxima…demasiado próxima até a um ponto sem retorno chamado “paixão”. Embora tentássemos evitar era mais forte que qualquer proibição. Podia-se dizer que era um “pecado” bonito se ser homem fosse pecado. É legítimo que reneguemos a nossa existência física e os seus impulsos? Não fazia sentido tentar evitar o que é de mais humano e natural no homem, mas a moral e os valores que a Igreja me incutira na minha aprendizagem haviam criado uma barreira a esse sentimento em tudo natural. Criara-se em mim um dilema. Se por um lado sentia que tinha obrigações para com a paróquia e para com a Igreja, por outro sentia que também tinha obrigações para comigo e para com quem amava. Não muito certo na minha crença pedi ajuda divina…um redondo silêncio foi a resposta. Cada vez mais me convencia que Deus me tinha abandonado. De um lado tinha a representação terrena do amor presente, sensível, recíproco. Do outro tinha a Deus, representação de um amor totalitário baseado numa crença de dogmas, retrógrada e incerta…

Encontrava-me angustiado, confuso…apaixonado. Porque é que a Igreja ensinava a amar o próximo e não deixava amar um “outro mais próximo”? Porque é que a religião pregava a simplicidade quando era a principal raiz da complexidade?

Saí da paróquia e peguei no carro para ir para casa. Estava uma noite chuvosa de Dezembro. No caminho fui tentando perceber todas estas dúvidas que me atormentavam, como se quisesse arrancar de mim o eu que Eu não era. Num momento de distracção desviei o carro da estrada, embatendo numa pedra que o descontrolou indo este em direcção a uma ribanceira que espelhava a morte (que mais tarde se demonstrou ter sido reveladora). Os momentos seguintes foram uma montagem quase cinematográfica da minha vida num segundo que mais pareceu uma VIDA. Todas as experiências, situações, pessoas, desilusões, alegrias…amores e desamores… Tudo passou pela minha cabeça como um filme bem orquestrado que parecia anteceder a morte e o último desígnio divino que supostamente me estava reservado.

“É agora…” – Pensei…

Depois do embate veio o silêncio…………………………………………………….

Estava escuro… dei por mim sozinho no meio do nada acompanhado apenas pelas memórias de um passado que parecia cada vez mais distante. Perguntei a mim mesmo onde estava a luz que me haveria de guiar, onde estavam os coros celestiais que me haviam de receber em júbilo. Mais uma vez “nada” foi a resposta, a não ser mais uma vez as memórias a invadirem-me o pensamento. Foi então que cheguei à fria conclusão que ali não iria encontrar nada a não ser eu próprio e o nada que não era mais que a revelação da finitude da própria existência….Assustador mas ao mesmo tempo revelador! “Tenho de acordar, tenho que dar sentido a isto tudo…” – pensei, tendo vivido toda a vida com uma noção divina de destino eterno. Esta noção tinha-me toldado a visão para o que era realmente importante…a existência presente, o Eu divino e não o “Outro” desconhecido que me tinham incutido a venerar. Não fazia sentido viver para um objectivo que só vem depois da morte. Porque não VIVER antes??!!

Acordo sobressaltado por este último pensamento numa cama de hospital. Sinto dores tremendas pelo corpo todo e fico feliz por isso, pois só Me diz que estou vivo. À minha volta amontoam-se pessoas de bata branca que julgo serem médicas. Tento esboçar um sorriso como forma de agradecimento pelo que teriam feito para que ainda estivesse vivo. Nesse momento há um deles que diz:

- Graças a Deus que ele acordou!

Aquela afirmação automatizada de contentamento soou-Me bastante estranha e deslocada. Talvez porque momentos antes Me teria apercebido de que deus não tinha tido qualquer influência na minha “ressurreição”, apenas os médicos e Eu. Tudo se mostrava agora diferente mas com uma claridade que nunca antes me apercebera. Parecia de certo modo que estava a voltar a ver o mundo pela primeira vez, como que reformulado, reconstruído, retornado. A vê-lo pelos Meus olhos pela primeira vez! Senti uma vontade enérgica de viver.

“Quero sair daqui! Quero VIVER! Quero SER! Quero SENTIR!” – Pensei para Mim.

Tinha ficado em coma durante mais de um mês. Isabel também estava presente na sala. Ela e mais uns tantos paroquianos sempre a pedirem a minha atenção para o facto da minha sobrevivência ter sido atribuída a um acto de misericórdia divino…Pois sim…No meio desta cena só conseguia senti-la a ela e a Mim, tudo o resto eram espectros de uma outra realidade que não a nossa.

A recuperação foi longa, mas mais rápida que o esperado pois a minha vontade de sair dali era enorme. Isabel vinha-Me visitar todos os dias e trazia com ela o desejo de estarmos juntos. Com tempo as mazelas ficaram curadas e eu estava pronto para enfrentar o mundo liberto de quaisquer regras e princípios a não ser os meus. Naquele momento só precisava de sair daquela terra, de deixar para trás tudo aquilo que Eu já não era. Saí do hospital e logo senti uma liberdade que poucas vezes havia sentido, senti-Me realmente dono de Mim. Fui ter com Isabel a casa dela e expliquei-lhe que não poderia continuar em S. Esmifra e que iria voltar à cidade de donde viera. Fiz-lhe a pergunta fatal:

- Queres vir comigo para a cidade? Vamos viver juntos! Eu vou sair da igreja. Já não faz sentido pregar algo em que já não tenho “fé”! Agora a única coisa que quero é viver à minha maneira, contigo ao meu lado! Amo-te!

Os olhos dela brilharam, mas logo a seguir se encheram de hesitação e incerteza. Sorriu, abraçou-me com força e beijamo-nos.

- Também é tudo o que eu mais quero, mas…preciso de tempo, para pensar, para reflectir, ainda há pouco tempo cá cheguei. Os miúdos precisam de mim…mas também preciso de ti…também te amo.

- Eu percebo. Quando estiveres “pronta” sabes onde é que eu vou estar. Eu espero por ti o tempo que for preciso. Mesmo assim não posso cá ficar. Vou embora amanhã. Vou começar uma nova vida na cidade e queria que fizesses parte dela!

- Eu quero fazer parte! Espera por mim amor!

A chorar despediu-se de mim, mas não sem antes “sorrir um daqueles sorrisos” que parecia comunicar um até breve.

Tratei de todos os assuntos relacionados com a paróquia e a aldeia que tinha pendentes e regressei à cidade. Quando cheguei fui tratar imediatamente de cortar todos os laços que me atavam à igreja. Era a partir daí realmente Livre. Voltei à casa. Localizava-se relativamente perto do centro mas dispunha de uma privacidade pouco conseguida numa casa citadina através dos seus muros altos. Era grande, tendo em conta que era uma casa para três a quatro pessoas no máximo. Tinha dois andares, dois pátios e duas entradas que davam para ruas diferentes. Ambas as entradas eram precedidas por pátios que estavam nesse momento abandonados. Quando entrei abri as janelas todas e deixei a luz dar uma nova dinâmica ao espaço. Nunca tinha gostado muito daquela casa mas agora sentia-me ao mesmo tempo longe de tudo e perto de Mim. Depois de tratar da casa sentei-Me um pouco cá fora a pensar no que iria fazer daí para a frente. Tanta coisa que ainda não tinha feito, tanta que queria fazer. Sempre tinha tido uma paixão por desporto e ultimamente tinha uma vontade de experimentar uns mais “radicais”, como sendo aqueles que subindo a nossa adrenalina ao máximo nos fazem sentir ao mesmo tempo mais perto da morte e mais vivos, mas principalmente como detentores da chave da vida ou da morte, a escolha era nossa, o controlo era nosso.

- Um ex-padre apaixonado radical?

Ri-Me que nem um perdido sozinho em casa, mas o pensamento perdurou, pelo que semanas depois decidi pegar nas posses que ainda tinha de herança e investi-las numa empresa de organização de eventos radicais. Durante meses investi bem, fiz contactos, amigos, fui crescendo no negócio, organizando eventos, patrocinando outros, e até arranjei um nome para a empresa baseado na minha experiência: “Divine Radicals Sports”. Finalmente a Minha vida fazia o sentido que Eu almejava em tudo menos num ponto chamado Isabel. Já não tinha notícias dela desde que tinha saído de S. Esmifra de Sino na Tola, mesmo assim estava tranquilo. Mas um dia, quando Eu voltava do escritório fui dar com o portão da casa estranhamente aberto. Curioso e cauteloso entrei… À Minha espera no meio do pátio estava um sorriso com os olhos em lágrimas de alegria. Era a Isabel. Por momentos olhamo-Nos incrédulos. Depois Ela largou o saco que mais parecia transporta-La, de tão grande que era e veio a correr ter comigo. Fechei o portão rapidamente e recebi-A nos meus braços. Pediu-Me desculpa. Sorri. Abraçamo-Nos…

quinta-feira, março 09, 2006

A essência da vida


Nunca vos aconteceu num momento mais profundo de contemplação do mundo à vossa volta ter um momento de iluminação onde tudo parece lógico e perfeitamente compreensível, como se todas as forças que intervêm na transformação constante do mundo, mesmo as invisíveis nos fossem percepcionáveis? É nesses momentos de “iluminação” que tomamos consciência da existência de uma “Essência” unificadora de todas as coisas, um cordão umbilical que nos liga a tudo e o tudo a nós.

“Olhou satisfeito para o rio, nunca a água lhe agradara tanto como esta, nunca compreendera tão clara e profundamente a voz e o significado alegórico da água que corre. Parecia-lhe que o rio tinha algo especial para lhe dizer, algo que ele ainda não sabia, que ainda o aguardava.” (1)

Do ponto infinitamente mais pequeno ao maior da matéria, do macro ao microcosmos, do “bom” e o “mau”. Tudo parece balançar sobre uma corda num equilíbrio perfeito! Todas as coisas, mesmo as inanimadas são portadoras de uma essência em tudo similar à nossa. Cientificamente (friamente) falando, todas as coisas são combinações de estruturas atómicas que na sua raiz são idênticas, mas através da sua combinação ou posicionamento diferente criam estruturas por sua vez maiores que dão origem a uma célula, que por sua vez replicada numa estrutura superior dão origem a seres de uma complexidade cada vez maior, culminando em nós, humanos (ou isso pensamos nós no nosso egoísmo de seres “superiores”). Cientificamente falando não passaríamos de fórmulas cientificas facilmente reproduzíveis laboratorialmente…mas há esse “algo especial” de que ainda aguardamos, essa tal “essência” que se sobrepõe a toda a física e matemática, que age sobre todas as coisas num bailado único a que chamamos vida…

“Se as portas da percepção fossem purificadas tudo se mostraria ao homem tal como é, infinito.” (2)



1 –
In Siddharta; 1950; Hesse, Hermann

2 –
In The Marriage of Heaven and Hell; 1793; Blake, William


Imagem - "Contemplation"; Copyright: Nathan Jon Tillet 2003 www.FuzzyPlanet.com

domingo, fevereiro 26, 2006

Epah...ya...fiz um blog!



Epah...já devem estar a perguntar o porquê deste nome irritante, mas...epah...era inevitável porque esta expressão acompanha-me como se de uma doença crónica se tratasse, incurável por sinal e geneticamente transmissível. Veja-se o exemplo do excelso (mas não tanto) meu pai que em cada telefonema profere mais de 20 vezes esta famigerada palavra que tanta importância (piu...) tem no meu discurso...( e não importa se é homem ou mulher...leva com "epah" na mesma dose que aqui não há desigualdades)

Este blog surge como uma oportunidade de mostrar um pouco de mim e de quem me acompanha no meu percurso ao mundo. É especialmente construído para o culto da boa disposição, da emoção e da reflexão.

Epah...Espero que gostem... :D