Não vi a luz...vi-me a Mim!
Isto foi um conto baseado na filosofia Nietzscheana do Nihilismo e do "Ubberman" (ou super-homem) que tive de escrever para teoria do design. Está mesmo escrito "em cima do joelho" mas postei na mesma para quem tenha paciência de o ler além de mim...hehe

Pregava na paróquia de S. Esmifra de Sino na Tola há já algum tempo. Era, ainda na minha juventude um pároco exemplar em pregar o que me havia sido ensinado, todos os dogmas, todas as verdades inabaláveis todos os valores e moral pela igreja incutidos. Tudo para mim fazia um sentido inexplicável, mas tão certo como a morte. Sempre me tinha dedicado ao “próximo” esperando por um lugar nesse desígnio final que Deus guardaria para todos nós. Toda a minha vida tinha sido até aí dedicada ao altruísmo e aos ensinamentos da igreja. Estava tudo “bem” bem até “ela” aparecer…
Chamava-se Isabel e era a personificação da beleza. Deveria ter na altura os seus vinte e poucos anos e era uma professora primária recém chegada à aldeia. Os miúdos lá da aldeia pareciam adora-la. Tinha, cabelo dourado, sedoso e leve, lábios que pareciam comunicar sedução e uns olhos de um verde que invadia a privacidade e roubava um bocado de quem por eles fosse olhado. Era uma pessoa simples, autêntica, transparente, sempre pronta a oferecer um sorriso terno. Era dotada de uma beleza serena. Foi desde essa altura, em que a vi pela primeira vez, que soube que não ia conseguir impedir esse impulso natural no homem: a tentação. Mesmo indo contra os princípios e regras do hábito que envergava fui-me aproximando. Esse convívio foi tornando a nossa relação cada vez mais próxima…demasiado próxima até a um ponto sem retorno chamado “paixão”. Embora tentássemos evitar era mais forte que qualquer proibição. Podia-se dizer que era um “pecado” bonito se ser homem fosse pecado. É legítimo que reneguemos a nossa existência física e os seus impulsos? Não fazia sentido tentar evitar o que é de mais humano e natural no homem, mas a moral e os valores que a Igreja me incutira na minha aprendizagem haviam criado uma barreira a esse sentimento em tudo natural. Criara-se em mim um dilema. Se por um lado sentia que tinha obrigações para com a paróquia e para com a Igreja, por outro sentia que também tinha obrigações para comigo e para com quem amava. Não muito certo na minha crença pedi ajuda divina…um redondo silêncio foi a resposta. Cada vez mais me convencia que Deus me tinha abandonado. De um lado tinha a representação terrena do amor presente, sensível, recíproco. Do outro tinha a Deus, representação de um amor totalitário baseado numa crença de dogmas, retrógrada e incerta…
Encontrava-me angustiado, confuso…apaixonado. Porque é que a Igreja ensinava a amar o próximo e não deixava amar um “outro mais próximo”? Porque é que a religião pregava a simplicidade quando era a principal raiz da complexidade?
Saí da paróquia e peguei no carro para ir para casa. Estava uma noite chuvosa de Dezembro. No caminho fui tentando perceber todas estas dúvidas que me atormentavam, como se quisesse arrancar de mim o eu que Eu não era. Num momento de distracção desviei o carro da estrada, embatendo numa pedra que o descontrolou indo este em direcção a uma ribanceira que espelhava a morte (que mais tarde se demonstrou ter sido reveladora). Os momentos seguintes foram uma montagem quase cinematográfica da minha vida num segundo que mais pareceu uma VIDA. Todas as experiências, situações, pessoas, desilusões, alegrias…amores e desamores… Tudo passou pela minha cabeça como um filme bem orquestrado que parecia anteceder a morte e o último desígnio divino que supostamente me estava reservado.
“É agora…” – Pensei…
Depois do embate veio o silêncio…………………………………………………….
Estava escuro… dei por mim sozinho no meio do nada acompanhado apenas pelas memórias de um passado que parecia cada vez mais distante. Perguntei a mim mesmo onde estava a luz que me haveria de guiar, onde estavam os coros celestiais que me haviam de receber em júbilo. Mais uma vez “nada” foi a resposta, a não ser mais uma vez as memórias a invadirem-me o pensamento. Foi então que cheguei à fria conclusão que ali não iria encontrar nada a não ser eu próprio e o nada que não era mais que a revelação da finitude da própria existência….Assustador mas ao mesmo tempo revelador! “Tenho de acordar, tenho que dar sentido a isto tudo…” – pensei, tendo vivido toda a vida com uma noção divina de destino eterno. Esta noção tinha-me toldado a visão para o que era realmente importante…a existência presente, o Eu divino e não o “Outro” desconhecido que me tinham incutido a venerar. Não fazia sentido viver para um objectivo que só vem depois da morte. Porque não VIVER antes??!!
Acordo sobressaltado por este último pensamento numa cama de hospital. Sinto dores tremendas pelo corpo todo e fico feliz por isso, pois só Me diz que estou vivo. À minha volta amontoam-se pessoas de bata branca que julgo serem médicas. Tento esboçar um sorriso como forma de agradecimento pelo que teriam feito para que ainda estivesse vivo. Nesse momento há um deles que diz:
- Graças a Deus que ele acordou!
Aquela afirmação automatizada de contentamento soou-Me bastante estranha e deslocada. Talvez porque momentos antes Me teria apercebido de que deus não tinha tido qualquer influência na minha “ressurreição”, apenas os médicos e Eu. Tudo se mostrava agora diferente mas com uma claridade que nunca antes me apercebera. Parecia de certo modo que estava a voltar a ver o mundo pela primeira vez, como que reformulado, reconstruído, retornado. A vê-lo pelos Meus olhos pela primeira vez! Senti uma vontade enérgica de viver.
“Quero sair daqui! Quero VIVER! Quero SER! Quero SENTIR!” – Pensei para Mim.
Tinha ficado em coma durante mais de um mês. Isabel também estava presente na sala. Ela e mais uns tantos paroquianos sempre a pedirem a minha atenção para o facto da minha sobrevivência ter sido atribuída a um acto de misericórdia divino…Pois sim…No meio desta cena só conseguia senti-la a ela e a Mim, tudo o resto eram espectros de uma outra realidade que não a nossa.
A recuperação foi longa, mas mais rápida que o esperado pois a minha vontade de sair dali era enorme. Isabel vinha-Me visitar todos os dias e trazia com ela o desejo de estarmos juntos. Com tempo as mazelas ficaram curadas e eu estava pronto para enfrentar o mundo liberto de quaisquer regras e princípios a não ser os meus. Naquele momento só precisava de sair daquela terra, de deixar para trás tudo aquilo que Eu já não era. Saí do hospital e logo senti uma liberdade que poucas vezes havia sentido, senti-Me realmente dono de Mim. Fui ter com Isabel a casa dela e expliquei-lhe que não poderia continuar em S. Esmifra e que iria voltar à cidade de donde viera. Fiz-lhe a pergunta fatal:
- Queres vir comigo para a cidade? Vamos viver juntos! Eu vou sair da igreja. Já não faz sentido pregar algo em que já não tenho “fé”! Agora a única coisa que quero é viver à minha maneira, contigo ao meu lado! Amo-te!
Os olhos dela brilharam, mas logo a seguir se encheram de hesitação e incerteza. Sorriu, abraçou-me com força e beijamo-nos.
- Também é tudo o que eu mais quero, mas…preciso de tempo, para pensar, para reflectir, ainda há pouco tempo cá cheguei. Os miúdos precisam de mim…mas também preciso de ti…também te amo.
- Eu percebo. Quando estiveres “pronta” sabes onde é que eu vou estar. Eu espero por ti o tempo que for preciso. Mesmo assim não posso cá ficar. Vou embora amanhã. Vou começar uma nova vida na cidade e queria que fizesses parte dela!
- Eu quero fazer parte! Espera por mim amor!
A chorar despediu-se de mim, mas não sem antes “sorrir um daqueles sorrisos” que parecia comunicar um até breve.
Tratei de todos os assuntos relacionados com a paróquia e a aldeia que tinha pendentes e regressei à cidade. Quando cheguei fui tratar imediatamente de cortar todos os laços que me atavam à igreja. Era a partir daí realmente Livre. Voltei à casa. Localizava-se relativamente perto do centro mas dispunha de uma privacidade pouco conseguida numa casa citadina através dos seus muros altos. Era grande, tendo em conta que era uma casa para três a quatro pessoas no máximo. Tinha dois andares, dois pátios e duas entradas que davam para ruas diferentes. Ambas as entradas eram precedidas por pátios que estavam nesse momento abandonados. Quando entrei abri as janelas todas e deixei a luz dar uma nova dinâmica ao espaço. Nunca tinha gostado muito daquela casa mas agora sentia-me ao mesmo tempo longe de tudo e perto de Mim. Depois de tratar da casa sentei-Me um pouco cá fora a pensar no que iria fazer daí para a frente. Tanta coisa que ainda não tinha feito, tanta que queria fazer. Sempre tinha tido uma paixão por desporto e ultimamente tinha uma vontade de experimentar uns mais “radicais”, como sendo aqueles que subindo a nossa adrenalina ao máximo nos fazem sentir ao mesmo tempo mais perto da morte e mais vivos, mas principalmente como detentores da chave da vida ou da morte, a escolha era nossa, o controlo era nosso.
- Um ex-padre apaixonado radical?
Ri-Me que nem um perdido sozinho em casa, mas o pensamento perdurou, pelo que semanas depois decidi pegar nas posses que ainda tinha de herança e investi-las numa empresa de organização de eventos radicais. Durante meses investi bem, fiz contactos, amigos, fui crescendo no negócio, organizando eventos, patrocinando outros, e até arranjei um nome para a empresa baseado na minha experiência: “Divine Radicals Sports”. Finalmente a Minha vida fazia o sentido que Eu almejava em tudo menos num ponto chamado Isabel. Já não tinha notícias dela desde que tinha saído de S. Esmifra de Sino na Tola, mesmo assim estava tranquilo. Mas um dia, quando Eu voltava do escritório fui dar com o portão da casa estranhamente aberto. Curioso e cauteloso entrei… À Minha espera no meio do pátio estava um sorriso com os olhos em lágrimas de alegria. Era a Isabel. Por momentos olhamo-Nos incrédulos. Depois Ela largou o saco que mais parecia transporta-La, de tão grande que era e veio a correr ter comigo. Fechei o portão rapidamente e recebi-A nos meus braços. Pediu-Me desculpa. Sorri. Abraçamo-Nos…

Pregava na paróquia de S. Esmifra de Sino na Tola há já algum tempo. Era, ainda na minha juventude um pároco exemplar em pregar o que me havia sido ensinado, todos os dogmas, todas as verdades inabaláveis todos os valores e moral pela igreja incutidos. Tudo para mim fazia um sentido inexplicável, mas tão certo como a morte. Sempre me tinha dedicado ao “próximo” esperando por um lugar nesse desígnio final que Deus guardaria para todos nós. Toda a minha vida tinha sido até aí dedicada ao altruísmo e aos ensinamentos da igreja. Estava tudo “bem” bem até “ela” aparecer…
Chamava-se Isabel e era a personificação da beleza. Deveria ter na altura os seus vinte e poucos anos e era uma professora primária recém chegada à aldeia. Os miúdos lá da aldeia pareciam adora-la. Tinha, cabelo dourado, sedoso e leve, lábios que pareciam comunicar sedução e uns olhos de um verde que invadia a privacidade e roubava um bocado de quem por eles fosse olhado. Era uma pessoa simples, autêntica, transparente, sempre pronta a oferecer um sorriso terno. Era dotada de uma beleza serena. Foi desde essa altura, em que a vi pela primeira vez, que soube que não ia conseguir impedir esse impulso natural no homem: a tentação. Mesmo indo contra os princípios e regras do hábito que envergava fui-me aproximando. Esse convívio foi tornando a nossa relação cada vez mais próxima…demasiado próxima até a um ponto sem retorno chamado “paixão”. Embora tentássemos evitar era mais forte que qualquer proibição. Podia-se dizer que era um “pecado” bonito se ser homem fosse pecado. É legítimo que reneguemos a nossa existência física e os seus impulsos? Não fazia sentido tentar evitar o que é de mais humano e natural no homem, mas a moral e os valores que a Igreja me incutira na minha aprendizagem haviam criado uma barreira a esse sentimento em tudo natural. Criara-se em mim um dilema. Se por um lado sentia que tinha obrigações para com a paróquia e para com a Igreja, por outro sentia que também tinha obrigações para comigo e para com quem amava. Não muito certo na minha crença pedi ajuda divina…um redondo silêncio foi a resposta. Cada vez mais me convencia que Deus me tinha abandonado. De um lado tinha a representação terrena do amor presente, sensível, recíproco. Do outro tinha a Deus, representação de um amor totalitário baseado numa crença de dogmas, retrógrada e incerta…
Encontrava-me angustiado, confuso…apaixonado. Porque é que a Igreja ensinava a amar o próximo e não deixava amar um “outro mais próximo”? Porque é que a religião pregava a simplicidade quando era a principal raiz da complexidade?
Saí da paróquia e peguei no carro para ir para casa. Estava uma noite chuvosa de Dezembro. No caminho fui tentando perceber todas estas dúvidas que me atormentavam, como se quisesse arrancar de mim o eu que Eu não era. Num momento de distracção desviei o carro da estrada, embatendo numa pedra que o descontrolou indo este em direcção a uma ribanceira que espelhava a morte (que mais tarde se demonstrou ter sido reveladora). Os momentos seguintes foram uma montagem quase cinematográfica da minha vida num segundo que mais pareceu uma VIDA. Todas as experiências, situações, pessoas, desilusões, alegrias…amores e desamores… Tudo passou pela minha cabeça como um filme bem orquestrado que parecia anteceder a morte e o último desígnio divino que supostamente me estava reservado.
“É agora…” – Pensei…
Depois do embate veio o silêncio…………………………………………………….
Estava escuro… dei por mim sozinho no meio do nada acompanhado apenas pelas memórias de um passado que parecia cada vez mais distante. Perguntei a mim mesmo onde estava a luz que me haveria de guiar, onde estavam os coros celestiais que me haviam de receber em júbilo. Mais uma vez “nada” foi a resposta, a não ser mais uma vez as memórias a invadirem-me o pensamento. Foi então que cheguei à fria conclusão que ali não iria encontrar nada a não ser eu próprio e o nada que não era mais que a revelação da finitude da própria existência….Assustador mas ao mesmo tempo revelador! “Tenho de acordar, tenho que dar sentido a isto tudo…” – pensei, tendo vivido toda a vida com uma noção divina de destino eterno. Esta noção tinha-me toldado a visão para o que era realmente importante…a existência presente, o Eu divino e não o “Outro” desconhecido que me tinham incutido a venerar. Não fazia sentido viver para um objectivo que só vem depois da morte. Porque não VIVER antes??!!
Acordo sobressaltado por este último pensamento numa cama de hospital. Sinto dores tremendas pelo corpo todo e fico feliz por isso, pois só Me diz que estou vivo. À minha volta amontoam-se pessoas de bata branca que julgo serem médicas. Tento esboçar um sorriso como forma de agradecimento pelo que teriam feito para que ainda estivesse vivo. Nesse momento há um deles que diz:
- Graças a Deus que ele acordou!
Aquela afirmação automatizada de contentamento soou-Me bastante estranha e deslocada. Talvez porque momentos antes Me teria apercebido de que deus não tinha tido qualquer influência na minha “ressurreição”, apenas os médicos e Eu. Tudo se mostrava agora diferente mas com uma claridade que nunca antes me apercebera. Parecia de certo modo que estava a voltar a ver o mundo pela primeira vez, como que reformulado, reconstruído, retornado. A vê-lo pelos Meus olhos pela primeira vez! Senti uma vontade enérgica de viver.
“Quero sair daqui! Quero VIVER! Quero SER! Quero SENTIR!” – Pensei para Mim.
Tinha ficado em coma durante mais de um mês. Isabel também estava presente na sala. Ela e mais uns tantos paroquianos sempre a pedirem a minha atenção para o facto da minha sobrevivência ter sido atribuída a um acto de misericórdia divino…Pois sim…No meio desta cena só conseguia senti-la a ela e a Mim, tudo o resto eram espectros de uma outra realidade que não a nossa.
A recuperação foi longa, mas mais rápida que o esperado pois a minha vontade de sair dali era enorme. Isabel vinha-Me visitar todos os dias e trazia com ela o desejo de estarmos juntos. Com tempo as mazelas ficaram curadas e eu estava pronto para enfrentar o mundo liberto de quaisquer regras e princípios a não ser os meus. Naquele momento só precisava de sair daquela terra, de deixar para trás tudo aquilo que Eu já não era. Saí do hospital e logo senti uma liberdade que poucas vezes havia sentido, senti-Me realmente dono de Mim. Fui ter com Isabel a casa dela e expliquei-lhe que não poderia continuar em S. Esmifra e que iria voltar à cidade de donde viera. Fiz-lhe a pergunta fatal:
- Queres vir comigo para a cidade? Vamos viver juntos! Eu vou sair da igreja. Já não faz sentido pregar algo em que já não tenho “fé”! Agora a única coisa que quero é viver à minha maneira, contigo ao meu lado! Amo-te!
Os olhos dela brilharam, mas logo a seguir se encheram de hesitação e incerteza. Sorriu, abraçou-me com força e beijamo-nos.
- Também é tudo o que eu mais quero, mas…preciso de tempo, para pensar, para reflectir, ainda há pouco tempo cá cheguei. Os miúdos precisam de mim…mas também preciso de ti…também te amo.
- Eu percebo. Quando estiveres “pronta” sabes onde é que eu vou estar. Eu espero por ti o tempo que for preciso. Mesmo assim não posso cá ficar. Vou embora amanhã. Vou começar uma nova vida na cidade e queria que fizesses parte dela!
- Eu quero fazer parte! Espera por mim amor!
A chorar despediu-se de mim, mas não sem antes “sorrir um daqueles sorrisos” que parecia comunicar um até breve.
Tratei de todos os assuntos relacionados com a paróquia e a aldeia que tinha pendentes e regressei à cidade. Quando cheguei fui tratar imediatamente de cortar todos os laços que me atavam à igreja. Era a partir daí realmente Livre. Voltei à casa. Localizava-se relativamente perto do centro mas dispunha de uma privacidade pouco conseguida numa casa citadina através dos seus muros altos. Era grande, tendo em conta que era uma casa para três a quatro pessoas no máximo. Tinha dois andares, dois pátios e duas entradas que davam para ruas diferentes. Ambas as entradas eram precedidas por pátios que estavam nesse momento abandonados. Quando entrei abri as janelas todas e deixei a luz dar uma nova dinâmica ao espaço. Nunca tinha gostado muito daquela casa mas agora sentia-me ao mesmo tempo longe de tudo e perto de Mim. Depois de tratar da casa sentei-Me um pouco cá fora a pensar no que iria fazer daí para a frente. Tanta coisa que ainda não tinha feito, tanta que queria fazer. Sempre tinha tido uma paixão por desporto e ultimamente tinha uma vontade de experimentar uns mais “radicais”, como sendo aqueles que subindo a nossa adrenalina ao máximo nos fazem sentir ao mesmo tempo mais perto da morte e mais vivos, mas principalmente como detentores da chave da vida ou da morte, a escolha era nossa, o controlo era nosso.
- Um ex-padre apaixonado radical?
Ri-Me que nem um perdido sozinho em casa, mas o pensamento perdurou, pelo que semanas depois decidi pegar nas posses que ainda tinha de herança e investi-las numa empresa de organização de eventos radicais. Durante meses investi bem, fiz contactos, amigos, fui crescendo no negócio, organizando eventos, patrocinando outros, e até arranjei um nome para a empresa baseado na minha experiência: “Divine Radicals Sports”. Finalmente a Minha vida fazia o sentido que Eu almejava em tudo menos num ponto chamado Isabel. Já não tinha notícias dela desde que tinha saído de S. Esmifra de Sino na Tola, mesmo assim estava tranquilo. Mas um dia, quando Eu voltava do escritório fui dar com o portão da casa estranhamente aberto. Curioso e cauteloso entrei… À Minha espera no meio do pátio estava um sorriso com os olhos em lágrimas de alegria. Era a Isabel. Por momentos olhamo-Nos incrédulos. Depois Ela largou o saco que mais parecia transporta-La, de tão grande que era e veio a correr ter comigo. Fechei o portão rapidamente e recebi-A nos meus braços. Pediu-Me desculpa. Sorri. Abraçamo-Nos…

