terça-feira, maio 02, 2006

Número 111


Mais uma história para teoria do design, desta vez baseada no capítulo sobre a Factory de Andy Warhol, do livro "A Boa Vida" de Iñaki Ábalos. Este estava um bocado desinspirado e foi ainda mais em cima do joelho. Se tiverem paciência leiam. hehe


Era o fim das aulas, e eu encontrava-me aliviado de todo aquele stress próprio do final de um ano lectivo. Exames, trabalhos teóricos, projectos, maquetas…tudo isso ficava em suspenso durante as férias. Ainda me faltavam três anos para terminar a licenciatura em Arquitectura pela FAUP mas pelo menos metade do caminho já estava percorrido. Como que primeiro festejo do ano que acabara de terminar, eu e algum do pessoal da minha turma decidimos ir a uma esplanada à beira mar para gozar a recompensa de um ano de trabalho árduo. Era o quadro perfeito para um fim de tarde Junho bem passado. Comigo estava o grupo de sempre composto por amigos de longa data e colegas de curso: Nhé, Turtle, Fred, Diogo, Fábio, Isabel, Tabasco, Letícia, Paula, Ana e Joana. Estava um ambiente festivo, dominado pela cerveja, pelos tremoços e pelas piadas secas.

Fred - Epá…hoje à noite temos de ir a um sítio mesmo porreiro que conheci outro dia, o 111. É mesmo porreiro. É mesmo no centro de Matosinhos, na Rua Brito Capelo perto do metro. Tem um ambiente mesmo familiar, podes estar mesmo à vontade, o ambiente é de festa constante onde podes beber, fumar as tuas cenas, jogar matrecos, tocar piano, ler, pintar e é claro, ouvir música e dançar.

Nhé- Ya… Já ouvi falar disso. Disseram-me que era um espaço mesmo grande, que era uma antiga fábrica de conservas mas que agora estava abandonado até terem pegado nisso. E é porreiro que é mesmo no centro de Matosinhos. Podíamos lá ir hoje todos!

Fred - Por acaso nem sei se eles compraram o espaço ou o ocuparam simplesmente, mas seja como for, ao menos dão-lhe uso, em vez de o abandonarem à degradação e à marginalidade. Assim é lugar para a produção artística e para o divertimento.

- Por acaso este acho que o compraram, mas os “okupas” de Barcelona que eu vi por exemplo aproveitam-se de lacunas na lei para ocuparem espaços abandonados e em troca prestam serviço comunitário como dar aulas de castelhano a estrangeiros de forma a inseri-los mais rapidamente na sociedade, exposições de arte, intervenções humanitárias, etc. E o governo não os pode pôr fora dos edifícios exactamente por causa desse serviço prestado à comunidade.

Ana - Isto é tudo muito bonito mas eu tenho que ir para casa que já começa a ficar tarde para jantar e depois sairmos!

Fábio - Tchiiiiii…pois é… É melhor irmos senão temos que ficar na seca à espera delas no carro! Combinamos uma hora para nos encontrarmos no Piolho e cada um foi para seu lado. Eu, o Nhé, o Diogo e o Fábio fomos às francesinhas de canelas enquanto o resto do pessoal foi para casa.


Depois de uma bomba calórica como uma francesinha fomos para o Piolho, mesmo ao pé da Praça dos Leões, ponto de encontro para depois irmos para o 111. Foi chegando o pessoal menos algumas das raparigas, como era de esperar. Enquanto esperávamos fomos falando com pessoal conhecido e chegamos à conclusão que havia muita gente que também ia para lá. Todos nos diziam que o ambiente era “muito bom mesmo”. Chegadas as “misses” pegámos nos respectivos carros e dirigimo-nos para Matosinhos. Uma vez em Matosinhos estacionamos o carro perto da praia. Estava uma noite fantástica. Com o céu limpo, a lua e as estrelas iluminavam-nos o caminho até à festa. Não éramos os únicos a ser guiados pela luz nocturna, muitas outras pessoas se dirigiam para o 111, todas elas num clima bem animado, como que prevendo o que lá se iria passar. Ouvia-se um burburinho de fundo à distância. A zona onde se encontrava o 111 era povoada de antigas fábricas de conserva e armazéns industriais, uns abandonados, outros reaproveitados, quer para restauração, lojas e até habitação.

Conforme nos aproximava-mos o “burburinho” foi ficando mais claro, aumentando de intensidade, até que chegamos a um dos armazéns que tinha o número 111 à porta e percebemos que era daí que vinha o som. Havia um grande portão de correr metálico azulado já com a pintura estalada e com ferrugem de anos de abandono. Estava fechado, mas tinha uma campainha a beira, pelo que tomei a iniciativa de a tocar. Enquanto esperávamos que nos abrissem a porta, foram chegando mais grupos da nossa idade. Só nesse núcleo que tão rapidamente se juntara tínhamos a representação de algumas das “tribos” urbanas. Estava lá a massa “alternativa” toda.

Ouvia-se o som que passava lá dentro, devia ser The Strokes ou Franz Ferdinand. Entretanto ouvimos um barulho e abre-se uma portinhola à altura da cara e há alguém que olha para nós de dentro como que a avaliar-nos. Devíamos estar umas vinte e muitas pessoas à porta, e mais a caminho.

Bigga – Quantos é que vocês são? Tabasco – Somos mais que as mães!

Turtle – Somos dez! O pessoal que está atrás não veio connosco.

Bigga – Óptimo, é que já estamos um bocado cheios, já não deve entrar muito mais gente. Mas entrem e espero que curtam o espaço que hoje é noite rock! Podem-me chamar Bigga.

A entrada tinha duas paredes seguidas que tapavam o espaço principal mas deixavam ver o telhado antigo seguro por estruturas de madeira antigas. Estava cheia de cartazes, flyers, fotografias, desenhos, pinturas, tudo preso com alfinetes em paredes revestidas de cortiça. Esse hall de entrada tinha também três sofás que nada tinham de novo, possivelmente teriam sido recuperados. Tinha também uns matrecos que no momento estavam desocupados. Em dois dos sofás quatro casais literalmente fundiam-se em jogos de amor e desamor. Um cheiro agradável a erva invadiu-me os pulmões. No outro sofá estava um quarteto animado a fumar marijuana, os sorrisos rasgados deles não deixavam enganar ninguém. Um deles dirigiu-se a nós com o charro na mão e ofereceu-nos, pelo que aceitamos de bom grado.

Tozé - Bem vindos ao 111, eu sou o dono deste espaço, podem-me chamar

Tozé - É tradição tirar uma foto de todas as pessoas que entram aqui como forma de dar uma história deste espaço feita pelas pessoas que o frequentam. Já devem ter reparado nas paredes, presumo?

– Reparei logo nesse “pormenor” mal entramos! Este lugar transpira vida. Reparei também que os sofás e a mobília não são propriamente novos.

Tozé – Pois não são e ainda bem! Quase toda a mobília que está aqui dentro ou foi dada ou fomos buscar ao lixo, ressuscitando objectos que à partida já tinham sido declarados mortos. Damos vida ao obsoleto, ao “demodé”, ao velho. O próprio armazém é um espaço recuperado. Já o Warhol fez isso em Nova Iorque na década de 60. Eu apenas pensei em adaptar o conceito da Factory ao nosso contexto sócia, do nosso país. E Matosinhos surgiu como sítio perfeito para isso, visto ter uma data de fábricas e armazéns abandonados com um espaço interior enorme, perfeito para ter um atelier e um salão para festas, exposições, intervenções culturais várias, etc… E o facto de não ter paredes fixas dá uma flexibilidade e dinâmica ao espaço muito boas.

Letícia - É de louvar uma iniciativa destas. Quer a nível cultural quer a nível de requalificação urbana. A baixa do Porto precisa tanto que a reabitem, que a reutilizem... Vocês têm algum tipo de subsídio governamental que vos ajude?

Tozé – Subsídios? Não! Tudo o que fazemos e temos e fazemos parte de nós e de pessoas que se vão juntando a nós. Vêm cá uma, duas vezes, gostam do que vêm e ouvem, falam connosco e nós pomos o espaço a disposição. O produto dessas exposições e concertos é dividido, além de se trabalhar cá dentro também. Este espaço alimenta-se do poder criativo de quem o habita. Se vocês quiserem também podem exibir e pôr à venda aqui os vossos trabalhos! Ficamos todos com um sorriso instantâneo ao ouvir estas palavras. Esta iniciativa podia ser uma rampa de lançamento para todos nós. Todos nós tínhamos uma área de intervenção que poderia ser aproveitada.


Nhé – Porreiro! Eu tenho uma data de pinturas que queria expor, até para ver se ganho algum!


- Eu também tenho centenas de fotografias que também gostava de mostrar!


Tozé – Haja vontade, faz-se tudo! Se vocês estiverem mesmo interessados podem passar cá amanhã, e falamos melhor. Eu dou-vos o meu e-mail e o número do telemóvel e amanhã vamos tomar um café e falamos melhor.


Então ele pegou num pedaço de papel que estava preso na cortiça e rabiscou lá os contactos dele. Despedimo-nos e fomos para o salão já acompanhados pelo bem-estar alegre que a erva e a conversa nos tinham dado. O salão tinha duas zonas distintas, mas sem barreiras físicas. Uma delas era quase exclusiva para dançar, sem mesas, a não ser uma para o DJ de serviço, propiciava a prática da dança. A outra zona era uma zona de relaxe, cheia de puffs e almofadas gigantes, assentos automóveis e estantes cheias de livros para quem quisesse ler. Ao pé da estante tinha ainda um piano vertical, daqueles parecidos com os dos bares dos antigos westerns. O bar era um autocarro antigo todo alterado de maneira a servir de bar e cozinha do espaço. Nas paredes a toda a volta do salão estavam quadros expostos, muitos para venda, outros já vendidos. Depois do salão principal ainda tinha duas paredes seguidas que dividiam o resto do espaço, o atelier e zona de trabalho, com todos os artifícios necessários à produção artística e artesanal, e à recuperação de objectos. O ambiente estava alucinante, toda a gente parecia completamente desinibida, um bocado também devido às drogas que circulavam livremente lá dentro. Mas tudo parecia equilibrar-se numa balança muito peculiar. Depois de conhecer-mos os cantos à casa fomos até ao bar, pedimos umas bebidas e instalamo-nos nos puffs a falar, a fumar uns e a programar as férias que tinham acabado de começar. Durante o resto da noite ainda houve tempo de irmos jogar matrecos, de dançarmos e até de expormos os nossos dotes de piano. No fim da noite cada um foi para seu lado com um sorriso na cara de uma noite bem passada.


No dia seguinte aparecemos lá já com amostras do melhor que fazíamos. O Tozé gostou do que viu e concordou em abrir o espaço ao nosso trabalho. Cada um de nós ficaria com uma semana de cada mês para expor. Foram umas férias altamente produtivas e criativas. Alguns de nós também começaram a produzir lá em parceria com os que já lá estavam. Foi mesmo uma rampa de lançamento para todos nós, que mais tarde, já com o curso terminado e em conjunto recuperamos um prédio antigo na baixa do Porto e abrimos um atelier de produção artística, que englobava Arquitectura, Design Industrial, Design Gráfico e Pintura. Todos nós fomos bem sucedidos, cada um à sua maneira, mas todos em conjunto.